quarta-feira, 29 de junho de 2011

A nova pose da Myrian Rios!!!

Não me lembro da última vez que fui ao circo. Lembro-me vagamente da experiência de ficar na arquibancada esperando o show começar. E lembro também que apesar de todas as atrações disponíveis no espetáculo (malabares, mágicos, leão, etc...), o que eu queria mesmo era ver o palhaço.

Correndo o risco de soar muito cliché (fazer o que, né?), as palhaçadas da era moderna se concentram em outros lugares, transferindo o picadeiro de lugar. Isso não é necessariamente ruim visto que circos são por excelência entidades itinerantes. O problema, na minha opinião, é que o circo moderno e suas palhaçadas não nos fazem rir tanto. Pelo contrário. As palhaçadas têm um impacto nocivo, destruidor e, quando a raiva não supera, a vontade é mesmo de chorar.

Recebi via e-mail um vídeo com o depoimento da deputada do PDT Myrian Rios sobre o Projeto de Emenda à Constituição Fluminense 27/2003 (de autoria do deputado estadual Gilberto Palmares) que tem como objetivo "a inclusão da orientação sexual como direito individual e coletivo dos cidadãos fluminense". Lamentável. A fala da deputada foi lamentável! Não pretendo entrar no mérito (ainda) da condição pífia do depoimento da Myrian Rios, mas um fato que me chamou atenção no discurso dela (e, na verdade, também no discurso dos congressistas que votaram contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo em Nova Iorque) foi o fato de o argumento sempre buscar um respaldo religioso.

Como psicólogo cognitivo fico numa curiosidade danada para entender por que essas coisas acontecem e por que elas têm o efeito que têm. Não há dúvidas de que existe uma relação complexa entre política e religião. Cognitivamente, no entanto, essas duas 'instituições' têm um efeito muito semelhante na maneira como processamos informação. Isso explica um pouco do porquê elas, muitas vezes, são vistas como intrinsicamente ligadas.

Em postagens passadas (clique aqui), falei um pouco sobre uma característica cognitiva peculiar que é a nossa necessidade de ter uma constante sensação de "controle". O nosso sistema cognitivo funciona muito mais efetivamente quando temos a sensação de controle, ordem e poder preditivo. Já existe muita evidência empírica para isso na psicologia cognitiva (recentemente por exemplo, Cristine Legare e eu mostramos que até mesmo a percepção da eficácia de simpatias é alterada quando níveis de controle são alterados: em outras palavras, a sensação de incerteza te faz acreditar mais que uma simpatia vai funcionar). O governo e a religião servem como mecanismos externos de busca de controle.

Aaron Kay, um psicólogo da Duke University tem vários estudos mostrando uma interação muito interessante entre religião e governo no que diz respeito à sensação de controle que elas oferecem. Geralmente, quando a sensação de controle oferecida por uma delas é pouca, as pessoas tendem a acreditar mais na outra: se o governo está uma 'meleca', as pessoas tendem a se apegar mais à religião. E se por algum motivo você for influenciado a pensar que a religião não tem muito poder de oferecer nenhuma sensação de controle, você tende a acreditar mais no governo.

Em um dos estudos, por exemplo, os participantes foram induzidos a (1) pensar que o governo estava muito instável e perdendo um pouco das rédeas do comando do poder público ou (2) pensar que o governo estava no controle e era um governo extremamente firme e estável. As pessoas que viram o governo como instável mostraram uma crença muito maior em um Deus controlador do que as pessoas que viram o governo como uma instituição estável e firme.

Grande parte dos argumentos contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo, ou sobre a inclusão do termo "orientação sexual" no texto da constituição que condena atos discriminatórios são argumentos de caráter religiosos. São poucos os argumentos com respaldo científico e/ou com base em dados advindos de fontes confiáveis (ou que pelo menos podem ser contestadas). E uma vez que a política brasileira, em geral, é muito fraca na tarefa de oferecer aos cidadãos uma sensação de controle do poder público, é esperado (com base em algumas dessas pesquisas empíricas) que a crença nos pressupostos religiosos aumente de maneira sintomática. Não é sem motivo que as nações mais politicamente desenvolvidas do mundo são as que têm a menor população religiosa.

Essa relação curiosa entre religião/governo e sensação de poder não pode, no entanto, ofuscar a gravidade do argumento mal-articulado e horroroso que a deputada Myrian Rios proferiu na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Nenhum dos "fatos" que ela cita como problemáticos para a aprovação da emenda têm algum respaldo empírico. Inclusive, qualquer um que ler o texto da PEC na íntegra vai notar que o autor da proposta sim, baseia seus argumentos em pesquisas empíricas e ainda cita dois estados brasileiros (Mato Grosso e Sergipe) onde o texto já foi alterado. Dessa maneira, se alguém deseja argumentar contra essa inclusão e verificar empiricamente se a alteração do texto irá de fato aumentar o número de casos de pedofilia ou aumentar o casos de empregadores processados por alegação de discriminação da orientação sexual do empregado, basta utilizar esses dois estados como fonte de pesquisa. O que não pode é simplesmente alegar que, por princípios religiosos, homens e mulheres foram feitos para ficar juntos. Qualquer mente minimamente sã sabe que o buraco é muito mais embaixo. Bem mais lá em baixo, Myrian. Tão lá embaixo que eu acho que você vai precisar descer da Motoka para ver e entender.

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Referência:

Kay, A., Gaucher, D., Peach, J., Laurin, K., Friesen, J., Zanna, M., & Spencer, S. (2009). Inequality, discrimination, and the power of the status quo: Direct evidence for a motivation to see the way things are as the way they should be. Journal of Personality and Social Psychology, 97 (3), 421-434 DOI: 10.1037/a0015997

6 comentários:

  1. Excelente post, André!!!
    Científico com pitadas de deboche.
    Parabéns pelos 2 anos!

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  2. Parabéns.

    Pelo texto e aniversário do blogue.

    []s,

    Roberto Takata

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  3. Nossa que texto que é esse??
    Você fala de mais.

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  4. O argumento não é religioso não, viu? Mais precisamente: o argumento não é contra posicionamento religioso nenhum. Lê direitinho que você vai entender. Valeu pela visita, no entanto!

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  5. Esse texto ficou cozinhando no meu G! Reader por algum tempo e finalmente eu o li. Parabéns. Realmente é difícil entender como, num Estado laico as coisas estejam como nós estamos vendo.

    Parabéns pelo blog, gosto muito. Abraços.

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