segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cuidado! Deus está te olhando.

Eu sempre me divirto observando o comportamento de crianças. Me divirto mais ainda, quando percebo que nós, adultos, agimos igualzinho a elas. Ontem eu estava em um jantar na casa de uma amiga que tem uma filha de 5 anos de idade. Depois de algum tempo de conversa chata (não sei por que adulto insiste em conversar sobre coisa chata), parei de prestar atenção na conversa e comecei a observar a filha dela enquanto ela brincava de casinha na sala. Na brincadeira, a filha da minha amiga era a mãe dessa boneca MUITO feia. Coitada. A boneca tinha apenas metade do cabelo, a roupinha dela estava imunda e apenas um olho dela abria. Imaginei a vida sofrida que a boneca levava na mão da "mãe" dela.

Ela (a criança) não tinha percebido que eu estava a observando. Em um certo momento da brincadeira, a "mãe" disse à boneca: "você está muito mal-educada" e sentou-lhe um tapa na cara. O tapa foi tão forte que eu logo entendi o porquê do olho dela não abrir mais. Eu não consegui me segurar! Comecei a rir! A filha da minha amiga logo viu que eu estava olhando pra ela. Obviamente, ela "fingiu" que não estava vendo que eu estava vendo e começou a mudar o tratamento com a boneca. Ela falou com a boneca: "você não pode fazer isso! Mamãe não gosta. Mamãe já falou que não pode" (e olhava para mim de "rabo de olho"). Pensei comigo: que danadinha! Quando eu não estava olhando, ela fez a maldade com a boneca. Quando ela viu que eu estava observando, o tratamento logo mudou. Mas logo pensei: danadinha nada! É SER HUMANA!

Já a algum tempo venho desenvolvendo alguns trabalhos nessa área conhecida como Ciência Cognitiva da Religião. Um dos achados mais interessantes desse novo campo de pesquisa é a idéia de que a religião (ou a crença no sobrenatural) serve funções cognitivas bem específicas (veja essa postagem do Cognando para um exemplo de uma dessas funções). Uma delas é a seguinte: ela aumenta o comportamento prosocial do ser humano. Em outras palavras: ela faz com que as pessoas sejam pessoas boas (ou pelo menos faz com que elas ajam de maneira prosocial).

Um estudo realizado da Universidade de British Columbia em Vancouver no Canadá mostrou resultados empíricos que corroboram essa hipótese. Azim Shariff e Ara Norenzayan colocaram várias pessoas para participarem dessa tarefa/jogo conhecido como Dictator Game. Nessa tarefa, a pessoa (que joga contra um pesquisador disfarçado de participante) recebe dez notas de 1 dólar. Essa pessoa recebe o "poder" de decidir o que fazer com o dinheiro. Ela pode ficar com tudo ou dar qualquer quantia que ela quiser para a outra pessoa. Tudo feito no mais completo anonimato.

Antes de participar do Dictator Game, no entanto, os participantes tinham que formar umas frases com um grupo de palavras que eles recebiam dos pesquisadores. Metade dos participantes recebeu um grupo de palavras que tinha: Deus, divino, sagrado, espírito e profeta. A outra metade recebeu apenas palavras neutras (nenhuma palavra fazia menção à religião).

Após a tarefa com as palavras e o Dictator Game, os pesquisadores contavam a quantia que cada participante tinha deixado para a outra pessoa. Eis o resultado interessante: as pessoas que foram expostas às palavras Deus, divino, sagrado, espírito e profeta deixaram, em média, $4,22 dólares para a outra pessoa. As pessoas expostas às palavras neutras deixaram em média apenas $2,00 dólares. E mais intressante ainda: após o experimento, os pesquisadores perguntaram aos participantes quem acreditava em Deus. No entanto, a crença em Deus não foi um bom preditor da quantidade de dinheiro que a pessoa deixou.

Basicamente o que o estudo sugere é que apenas a ativação (implícita) de conceitos como Deus, divino, profeta, etc. foi capaz de influenciar o tamanho da bondade das pessoas. É como se isso ativasse a idéia de que Deus está olhando. Várias outras pesquisas, na verdade, mostraram efeitos bem parecidos. Em 2005, por exemplo, Jesse Bering (o autor do polêmico livro The Belief Instinct) mostrou que só de falar que existe um espírito de alguém que já morreu em uma sala, as pessoas tendem a "colar" menos em um teste. Com criança a mesma coisa acontece. Se você deixar um pacote de bala em uma sala e falar para a criança: "não coma nenhuma, pois minha amiga imaginária está aqui e vai me contar tudo", a probabilidade de ela comer uma bala será bem menor. Não somos tão diferentes dos pequeninos como achamos que somos.

No final das contas, só espero que a coitada da boneca de um olho só, algum dia, encontre a salvação!

Referência:

Shariff AF, & Norenzayan A (2007). God is watching you: priming God concepts increases prosocial behavior in an anonymous economic game. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 18 (9), 803-9 PMID: 17760777

2 comentários:

  1. Muito sem noção.... Mas André saiba que Jesus te ama.

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  2. Pois eu gosto muito de tudo que voce escreve meu jovem!

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