terça-feira, 5 de abril de 2011

A ajuda que você precisa: como lidar com pessoas depressivas.

Imagine a seguinte situação: você acorda às 7 da manhã com seu filho de 5 anos dizendo que está com dor de cabeça. Você mede a temperatura da criança e vê que ela está com 39,5 de febre. Você dá um pouco de suco de laranja para ela, mas ela não consegue segura-lo no estômago e vomita o suco. Percebendo o problema, você senta com a criança no sofá da sala e diz: "Oh filho! Não fica assim não. Não fica com febre não, tá bom?" Ou então diz o seguinte: "Oh filho! Você precisa sair dessa febre. Eu sei que é ruim, mas você precisa sair dela, tá bom?" Ou então: "Olha filho, eu sei que está com febre, mas não posso fazer nada por você. Mas sei que você sabe o que fazer! Conto com você!".

Eu acredito que muita gente vai concordar comigo que esses "métodos" para curar a febre da criança são pouco eficientes. Simplesmente não funcionam. E se você perguntar porquê, todo mundo vai saber responder:

(1) febre não depende de você querer ou não.
(2) febre é algo "físico" que ocorre no organismo e não "algo da sua cabeça"

É isso mesmo. Febre não depende de querer e nem é algo da nossa cabeça. No entanto, quanto se trata de depressão, a história muda. Existe ainda a crença de que depressão se cura "com conversa" e que na verdade depressão é "tristeza" da cabeça de alguém. Parte dessa crença vem da completa falta de conhecimento do que é a doença (o que ela afeta e como ela é combatida) e da completa falta de conhecimento de como lidar com pessoas depressivas. A minha postagem de hoje tem uma função meio utilidade pública: quero te ensinar um pouco sobre a doença e como lidar com pessoas à sua volta que têm depressão.

Primeiro ponto importante: depressão, assim como a febre, é uma doença física. Apesar de conhecermos ainda pouco sobre todas as causas e sintomas específicos da depressão, uma coisa podemos dizer com certeza: depressão tem uma base física (neurológica) bem fundamentada.

A doença: o cérebro humano é composto de, mais ou menos, 10 milhões de neurônios (células nervosas). Essas células são conectadas entre si. Essas conexões que possibilitam que uma célula se comunique com a outra. A comunicação entre dois neurônios ocorre em forma de impulsos elétricos -- uma célula envia um impulso elétrico para uma outra célula através da conexão entre elas. A base do nosso processamento cognitivo, movimentos, funções vitais, emoções, etc. está nessa constante troca de impulsos elétricos (um eletroencefalograma, por exemplo, mede exatamente esses impulsos elétricos).

No entanto, quando olhamos essas "conexões" de perto (usando um microscópio), vemos que, na verdade, um neurônio nunca encosta em outro. Existe um espaço entre uma célula e outra -- chamado sinapse -- e nesse espaço existem moléculas (enzimas) bem pequeninas chamadas neurotransmissores. São essas moléculas que "transmitem" um impulso elétrico de uma célula à outra. É como se elas pegassem o impulso de uma célula e levassem até a outra (uma espécie de office-boy das células). Apesar de pequeninos, esses neurotransmissores têm um papel muito importante no processamento de informação no cérebro. Se eles param de funcionar, a comunicação entre as células fica comprometida.

Um desses neurotransmissores -- conhecido como serotonina -- está presente em grande quantidade na região límbica do cérebro (a região responsável pelo controle das emoções e do humor). Esse neurostransmissor está envolvido na estimulação de batimentos cardíacos, na estimulação do sono, na excitação sexual, etc. A serotonina é um regulador de extrema importância no funcionamento correto do cérebro, principalmente no que diz respeito à como controlamos nossas emoções. Um outro neurotransmissor importante é conhecido como noradrelina. Esse está relacionado com o sistema que nos mantêm alerta (além de outras funções, claro).

Pacientes com depressão têm uma quantidade comprovadamente pequena de serotonina e noradrelina em suas sinapses nervosas. Em outras palavras, a comunicação entre os neurônios que precisam desse neurotransmissor é extremamente deficiente. E como esses neurônios se encontram em grande quantidade no sistema límbico do cérebro (aquele responsável pelo controle das emoções e humor), o cérebro encontra problemas em "lidar" com essas funções.

É como se o sistema límbico fosse um escritório responsável pelo controle das emoções. Cada neurônio (um funcionário do setor) tem uma responsabilidade distinta. Para um perfeito funcionamento do setor, os funcionários precisam se comunicar efetivamente. Imagine que o funcionário A envie uma mensagem para o funcionário B dizendo como ele deve agir em determinada situação (fogo, por exemplo). Se a informação do funcionário A nunca chega ao funcionário B, não há como o funcionário B saber como agir na determinada situação de fogo. E essa informação só não chegou ao funcionário B, porque o responsável pela transmissão dela (o neurotransmissor) não está presente. De uma forma bem simplista, é isso que ocorre!

Então? Existe remédio para isso? Sim. Sob um ponto de vista puramente biológico, a função do antidepressivo é curar esse problema de comunicação: ele "regulariza" o nível de serotonina (ou noradrenalina, dependendo do tipo de antidepressivo) nas sinapses nervosas. O Prozac, por exemplo, inibe um processo conhecido como "reutilização" de serotonina, o que consequentemente aumenta a quantidade de serotonina disponível na sinapse. Um antidepressivo não vai te deixar "feliz", mas vai auxiliar no controle da comunicação entre dois neurônios, de maneira que, diante de uma situação em que o controle das emoções seja necessário, essa comunicação ocorrerá de maneira mais efetiva.

Isso quer dizer que a depressão é puramente física? Obviamente, não. Ainda se conhece pouco sobre como todos os fatores (biológicos, genéticos e "sociais") que se combinam para criar quadros de depressão. Apesar de estar claro os fatores isolados que "causam" a depressão, ainda estamos em fases bem iniciais na compreensão de como esses fatores interagem. Mas ao mesmo tempo, sabemos que há uma disfunção física, de base neurológica, que caracteriza a doença. E isso precisa ser levado em consideração quando lidamos com pacientes depressivos.

Como lidar com eles então? Uma vez que você já sabe que existe um componente físico e que não depende da vontade do paciente para ser curado, evite achar que pode curar depressão com conversa. Da mesma forma que não faz sentido "conversar" para curar febre, não faz sentido apenas "conversar" para curar depressão.

Lembro que quando tive aulas de primeiros-socorros, uma das primeiras coisas que aprendi foi: "não tente remover a vítima, pois você pode piorar a situação dela". Lidar com uma pessoa depressiva é muito parecido com lidar com alguém que acabou de sofrer um acidente: executar algum procedimento sem "saber" o que está fazendo pode seriamente piorar o quadro da pessoa. Da mesma maneira que, ao lidar com alguém que acaba de sofrer um acidente, você às vezes não pode fazer nada, você não precisa dizer à pessoa que ela vai ficar sem a perna. Mais cedo ou mais tarde ela vai precisar saber que vai ficar sem a perna, mas isso não precisa ser dito na hora da agonia do acidente. Ao conversar com pessoas depressivas, evite dizer coisas do tipo "isso é coisa da sua cabeça", "você vai sair dessa; só depende de você", "não posso fazer nada por você". Mesmo que você não possa fazer nada, diga à pessoa "estou aqui com você e vou procurar ajuda para você".

Assim como ocorre com pessoas que sofrem um acidente, a cura para a depressão não é imediata. Mesmo após ir para o hospital, a dor das feridas do acidente ainda doem por um tempo. Mesmo depois que a pessoa procurar ajuda (que seja um antidepressivo), a cura ainda demora. O sistema límbico precisa se "reorganizar" para começar a funcionar normalmente de novo. É preciso paciência. E paciência vem com conhecimento do processo. Nunca se culpe pelo estado depressivo de alguém. A sua saúde mental é primordial se quer ajudar alguém depressivo. Mas saber como agir é essencial.

No pior das hipóteses, volte ao guia de primeiros-socorros. Pergunte! Procure saber. Leia sobre o assunto. Pergunte a quem entende. Essa atitude é melhor que do que simplesmente agir de qualquer maneira e arriscar machucar ainda mais alguém que já está suficientemente machucado a ponto de chegar à um quadro depressivo.

IMPORTANTE: Muita gente está entrando em contato comigo através do formulário de comentário desse post. Se você comentar como anônimo, deixe uma forma de contato no corpo do comentário (e-mail, por exemplo). Não se preocupe, pois os comentários são filtrados e eu não publicarei nenhuma informação pessoal. Se você apenas comentar como anônimo, eu não consigo retornar/responder o seu comentário! :) Ou se preferir, entre em contato diretamente comigo através do email: andre.souza.dr@gmail.com

Referência:

Wise, T. (1982). Depression, illness beliefs and severity of illness Journal of Psychosomatic Research, 26 (2), 247-253 DOI: 10.1016/0022-3999(82)90043-5

17 comentários:

  1. Diana, entre em contato comigo por email: andre@cognando.com

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  2. Li cada palavrinha desse texto... e cada uma fez muito sentido pra mim! Obrigada, meu bem!!
    Excelente postagem, sensacional!!

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  3. Eu gostei muito do seu artigo, e eu era exatamente do jeito que vc mencionou queria curar a minha mae ou queria que ela se curasse por si so. Eu dizia todas essas frases que vc disse que não podiamos dizer. Fico sem saida as vezes pq ela briga de mais...

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  4. Paulo, me envie um email se precisar: andre@cognando.com
    Um abraço,
    A.

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  5. Excelente postagem, André!
    Certamente, a depressão é uma das doenças mais enigmáticas que existem. Minha mãe tem depressão e eu tenho apresentado alguns quadros semelhantes. É uma luta diária.
    Abraço!

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  6. OI ADOREI O ARTIGO EU JÁ PASSEI POR ISSO DESDE DE CRIANÇA TIVE DEPRESSAO MINHA FAMILIA NUNCA ME ENTENDEU,AI ENTREI NAS DROGAS POIS ACHAVA KE ERA FELIZ MAIS SÓ NO MONENTO DEPOIS A DEPRE ERA PIOR ATÉ KI TENTEI O SUICIDIO AI DESCOBRIRAM OKE ERA ERA SÓ FUI CURADA POR DEUS É PELOS REMEDIOS...HIJI EM DIA CORRO DELA É DIFICIL MESMO...

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  7. Amei seu artigo, tenho depressão a muito tempo.Lendo seu artigo entendi mais uma vez que preciso tomar antidepressivo, tomo calmante a uns 15 anos, mas o antidepressivo não consigo tomar. Tudo de bom pra vc!!!

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  8. Olá li seu artigo e gostei muito!
    Gostaria de mais artigos relacionados a saber como lidar com pessoas depressivas.

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  9. Ola, amei seu artigo!
    Estou passando por esses problemas, com minha filha e não sei como lidar com ela precisava de mais orientações...

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  10. Olá, André,estou pesquisando todo tipo de auxilio posspivel sobre a doença pois meu namorado sofre de depressão, estamos a apenas 3 meses juntos, estou buscando todos os esforços no sentido de lidar com o problema. O ponto chave é saber como agir, pois fatos que seriam facilmente conduzidos por uma pessoa livre do estado depressivo para o deprimido pode ter proporções enormes, a irritabilidade e intolerância são vorazes. Quando desencadeada uma crise e ele quis isolamento, fico apreensiva, sem saber se tento trazê-lo para junto, demonstrando carinho e apoio ou se espero sem manifestações. deisi.santos.silva@hotmail.com

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  11. André, parabéns pela iniciativa em tornar público um assunto tão importante nos tempos modernos.

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  12. Aos que estão buscando ajuda com antidepressivos que recapturam a serotonina como Prozac, Zoloft, Efexor, Aropax e uma lista enorme por favor pesquisem muito pois os efeitos colaterais destes medicamentos são muito fortes e incluem comportamento violento que pode levar à ideação suicida induzida pelos medicamentos - indepedente da ideação suicida de depressão - e ideação homicida também.

    Muitas pessoas cometeram suicídio e homicídios devido a estes medicamentos.
    Infelizmente em Português não existem pessoas informando a respeito destes problemas e que estas drogas também são teratogênicas - mães que tomaram as drogas tiveram filhos com doenças graves.

    Esta hipótese de "desequilíbrio químico" da serotonina já foi questionada por muitos médicos e de acordo com muitos não é verdadeira.
    Acaba o paciente mudando de um antidepressivo para outro e termina não só depressivo como cheio de efeitos colaterais.

    Muitos não consguem mais parar de tomar pois os antidepressivos ISRS, como são conhecidos provocam tantas mudanças no corpo e mente que acaba o corpo não mais produzindo algumas substâncias naturais.
    Existem milhões de neurotransmissores que ainda não são conhecidos mas só 4 são manipulados pelas drogas psiquiátricas.


    5% da serotonina que é recaptada pelo antidepressivo fica no cérebro e os 95% restantes ficam viajando pelo corpo.

    Homens e mulheres que usaram estes medicamentos por um certo período de tempo e largaram nunca mais recobraram sua sexualidade.

    É um absurdo que não exista nada em português e apenas o que as indústrias farmacêuticas propagandeiam é tido como verdade.

    Informe-se. Já se fala em lobotomia química e de acordo com vários relatos de pacientes, alguns no Youtube, é exatamento o que está acontecendo.

    Por favor, pesquisem. Usem o tradutor do Google por que está muito bom.
    Procurem por médicos que lutam pela ética na medicina como Peter Breggin, Bruce Levine, David Healy, Joseph Glenmullen e que escreveram livros sobre os danos destas drogas.

    Deve haver alguma coisa em português. ao menos saibam que a medicina está entregue à indústria farmacêutica e vendem medicamento com o único intuito de lucrar.

    Médicos são pagos para prescreber...
    Abraço à todos.

    Agora vem alguém dizer que tudo o que eu disse é loucura, que estes medicamentos têm ajudado milhões de pessoas e tudo o mais.
    Faz parte.
    Apenas: procurem. Nem alguns médicos sabem do que se passa.
    Quanto tempo o seu médico te escutou para presrever uma droga que tem um poder absurdo de alterar sua mente, corpo e, como muitos dizem, "este medicamento acabou com a minha vida."

    Se sou louca por dizer isso eu prefiro do que ser anti-ética e ferir o juramento de Hipócrates.

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  13. Sobre Prozac:
    http://www.youtube.com/watch?v=j63-8Ac3dh0

    http://www.youtube.com/watch?v=tsquxnladxM&feature=related

    Comecem por aqui...

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  14. ANÔNIMO 18/06/2012

    Olá!
    Gostaria de parabenizá-lo pelas excelentes informações acima citadas, de uma forma simples, clara e objetiva!
    De fato á situação é delicada...no entanto existe tratamento..meios adequados para se atingir o objetivo- o controle da doença ou em alguns casos até a cura..segundo comentários que já li de outros especialistas.
    Mas para que isto ocorra realmente é preciso auto-conhecimento,paciencia e amor na medida certa..para que o processo possa ser efetivo.
    Digo isto pq me trato já há 10 anos do transtorno bipolar (medicamentoso+psicoterapia), e por enquanto tbém convivo com minha mãe que tem um certo grau de depressão.
    No caso dela já é diferente...ela não aceita tratamento, pelo menos por enquanto.. não consegue ver esta realidade...é complicado!!!
    Por isso digo por experiencia.. o melhor á ser feito é "aqueles que estão de fora", que se julgam com certa medida de compreensão..buscar ajuda profissional para poderem lidar da melhor forma com á situação...que tem dias que é pra lá de "PUXADO"!!!
    Obrigado

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  15. Muito obrigada por vc existir! Cuido de uma pessoa depressiva "grave", e pesquiso a cada dia como posso ajudá-la...suas dicas são simplesmente sensacionais...

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  16. Descordo um pouco do que vc disse apesar de ser baseado em estudos científicos. Já estive em profunda depressão quando criança, mas não acho que foi por motivos patolgícos mas sim pela minha condição emocional. Baixa auto estima, abondono, negligência e imcompreenção faziam parte da minha infãncia. Mas quando aceitei a Jesus e entreguei minha vida a Ele tudo mudou. Me sinto transformada. Não disconsidero a medicina mas acredito que a depressão é uma doença espiritual e situacional.

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